domingo, 6 de fevereiro de 2011

PESQUISA-AÇÃO: O diálogo indissociável entre pesquisa e ensino

RESENHA


CHIAPPINI, Ligia. Reinvenção da catedral: língua, literatura, comunicação: novas tecnologias e políticas de ensino. São Paulo: Cortez, 2005.


O livro “Reinvenção da catedral” documenta a trajetória de Ligia Chiappini no seu percurso enquanto pesquisadora, ancorada nos princípios da pesquisa-ação. A autora atua na formação de educadores, em um movimento que insere os docentes como sujeitos atuantes na construção e reconstrução do conhecimento. Para tal compreensão, discorre sobre o como ensinar, centrada em uma reflexão crítica sobre suas atividades pedagógicas.
Assim, Ligia Chiappini apresenta proposições, que tornam possíveis vislumbrar às inúmeras possibilidades de ensino, tendo como foco a dimensão coletiva contextualizada, institucional e histórica. Fato que contribui para a compreensão de sua trajetória enquanto pesquisadora, por intermédio da descrição do seu próprio caminhar e desenvolvimento na prática pedagógica. Trata-se de um processo ao mesmo tempo individualizado e coletivo, no qual a autora descreve de forma dinâmica as lutas empreendidas desde os duros tempos da ditadura militar, para construir um intercâmbio profícuo entre Universidade e Escola Pública até a atuação em projetos de equipe, definidos coletivamente. Propostas que tinham como foco a formação continuada dos professores de literatura e comunicações, com intuito de contribuir num novo paradigma educacional. A esse respeito, a autora destaca que parte dessa trajetória aparece em “Invasão da Catedral”, livro publicado em 1983, que se encontra esgotado na editora.
Chiappini apresenta o caminho percorrido da/pela invasão, desde quando a Universidade (Catedral) era pouco receptiva ao trabalho de formação-pesquisa junto aos professores da escola pública. Este era delegado às Faculdades de Educação, aos cursos de Pedagogia, as Práticas de Ensino e, ou limitado às associações docentes, à reinvenção, quando a própria Universidade se convence de que devia apoiar projetos dessa natureza, sendo essa uma de suas obrigações e necessidades. Portanto, o livro convida o leitor a compreender as novas reinvenções que surgiram ao longo do século, tanto da Universidade, quanto da Escola Pública, por meio de projetos e tentativas, as quais visam à formação do cidadão consciente de seus direitos e responsabilidades, familiarizado com as ferramentas necessárias ao exercício pleno da cidadania. Entre as ferramentas capazes de expressar à autonomia do ser humano a autora cita a linguagem, como uma, dentre as principais armas de desalienação ou alienação, visto a forma como é concebida. Para elucidar o seu trabalho profícuo com a linguagem, Chiappini (2005) discute os princípios, as estratégias e os conceitos que julgam atuais e úteis ao trabalho dos professores mediadores, na sua intervenção entre os alunos e os textos e entre estes e o saber.
A autora enfatiza que a linguagem e os produtos visuais da indústria cultural atravessam todo o cotidiano das escolas, fazendo com que alunos e professores orientem sua fala e suas práticas pedagógicas, por meio de novos valores e atuações no universo social. De acordo com Chiappini, a questão se complica quando a escola se deixa tomar por objetos da mídia, sem refletir sobre eles, se deixa envolver por princípios ditos como “mais democráticos” e passa a considerar a literatura como algo elitista. Esse procedimento é um dos tristes enganos da educação, pois esses são espaços de manifestação das diferenças e, “da sala de aula ao recreio, pode proporcionar o espaço-tempo da releitura da própria leitura pelo confronto com a leitura alheia, pode potencializar o individual pelo coletivo e vice-versa nas conversas e debates da leitura de cada aluno ou aluna” (CHIAPPINI, 2005, p. 1).
O livro divide-se em cinco partes: a pesquisa universitária e sua interface com o sistema educacional, onde apresenta o trabalho da universidade com a prefeitura de Luiza Erundina e Paulo Freire; livro didático, gramática e literatura, de princípios e métodos, literatura de comos e porquês. Nessa divisão, a autora destaca a necessidade de se perceber que as mudanças propostas são equivalentes a Reinvenção da Catedral. No sentido de que, é urgente uma nova postura diante da visão tradicional, centrada a maioria das atividades educacionais; o que requer um redescobrir o mundo em que se vive.
Na primeira parte, a autora trata da ligação indissociável entre pesquisa e ensino, em vários níveis do conhecimento, alertando para o diálogo e interação baseados no sentido ético-político de ser educador, este visto como intelectual e produtor do conhecimento. A proposta educativa de Chiappini busca trazer à tona a expressividade dos silêncios, das vozes sufocadas pela submissão, opressão e insegurança; por outras autorizadas pelo tato e com-tato da experiência, pela capacidade humana de refletir e expressar-se. Ou seja, o silêncio proposto pelo aprender a ouvir, trata-se de um silêncio a conquistar, no qual tanto o educador quando educando tenha voz ativa e saia do isolamento, do anonimato. Desta forma, talvez possa ser possível contribuir na aprendizagem de um cidadão autônomo, capaz de agir e interagir na sociedade.
A segunda parte delineia uma educação, para além da educação mecanicista, baseada na avaliação crítica da gestão de Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo; a qual teve como ministro da educação o ilustre educador Paulo Freire. Ligia delineia o perfil dos educadores do Estado de São Paulo e analisa valores e autonomia conquistada, mostrando a partir desses dados, a alavanca difícil, mas promissora da educação no período de vigência da administração citada, proposta esta que delineava uma nova trajetória educacional. Porém, a administração posterior, que tinha como líder Paulo Maluf, segundo ela, por ser político e não educador, este deixou de aderir às propostas já desenvolvidas e desestruturou o projeto político pedagógico anterior, colocando abaixo uma estrutura que tinha sido organizada a partir de muitas lutas e trabalho.
Com a destruição paulatina do processo pedagógico, pelo governo atual, a autora e o grupo se distanciam da assessoria e inicia outra fase, agora com outro projeto financiado pelo CNPQ, com o título de “A circulação dos textos na escola”. Chiappini descreve os problemas, benefícios e sugestões encontradas no percurso desse estudo e diz que a próxima fase do estudo se resumiu na coordenação juntamente com Adilson Citelli, da coleção Aprender e Ensinar com Textos. Essa coleção, no período da publicação deste livro, passava de dez volumes e já vislumbrava outros.
A terceira parte apresenta a relação conturbada entre gramática e literatura, defende seu ensino integrado com apresentação dos limites e possibilidades dessas disciplinas no livro didático, bem como a importância de materiais alternativos. Além disso, sugere mudanças significativas no processo ensino-aprendizagem, a partir de novos rumos, que possibilitem ao educador e ao educando serem sujeitos reais das aulas, do livro e do saber. Diante da atual conjuntura do trabalho com o livro didático, supõe que os novos trabalhos científicos e as discussões acerca do mesmo sejam veiculados para que cheguem ao conhecimento das pessoas, a fim de que estas possam traçar novos rumos à educação e propor soluções alternativas.
Chiappini define literatura como tudo o que é escrito, ou seja, qualquer texto escrito caberia na concepção ampla do conceito. Porém, não fecha e nem delimita os textos apenas com intenção artística, supondo que não há literatura sem um trabalho específico com as palavras. Assim, dá pistas importantes para o uso da literatura na pesquisa social e no ensino, lembrando que há duas tendências predominantes na teoria literária que oscilam em direções contraditórias. De um lado, a ênfase na especificidade e na autonomia, de outro a capacidade de representar a realidade. "De um lado, a literalidade, de outro a mimesis" (Chiappini, 2005, p. 245). No entanto, para os que quiserem ultrapassar essa dicotomia aborda que é preciso articular as duas dimensões, ou seja, conceber e trabalhar o texto por meio do contexto e vice-versa. Nesta circularidade de conhecimento, todos os saberes devem estar imbricados na árdua tarefa de reorganizar ou desorganizar o já instituído.
Desta maneira, pode-se constatar que os significados de leitura são muitos, permitindo uma grande diversidade de usos. Lê-se para conhecer, para aprender, para interpretar e avaliar o mundo. Lê-se, também, para participar de comunidades, de aprendizagem e práticas. Lê-se para viver a experiência da vida com sensibilidade e imaginação.  Por meio da literatura surge outra realidade, isto é, uma realidade construída na representação simbólica, paralela ao ambiente que foi imitado.
Chiappini (2005) reconhece a dificuldade de definir literatura e pede auxílio, por várias vezes, a Carlos Drummond de Andrade, para quem “a literatura é uma luta com as palavras”, utilizando também a definição ambígua de Alfonso Reyes, quando este autor diz que a “literatura é uma verdade suspeita” (REYES apud CHIAPPINI, 2005).
A quarta parte complementa a anterior, pois explicita métodos e princípios relacionados ao ensino da gramática e da literatura, bem como as concepções pedagógicas e políticas que as fundamentam. Ainda, aprofundando a discussão sobre a arte literária e o ensino da gramática, a autora discorre sobre a importância de tornar-se leitor, ou melhor, das inúmeras possibilidades que o ato de ler pode inferir sobre as pessoas. Segundo ela, assumir a condição de leitor, ativa por excelência, significa colocar-se criticamente sobre a gama de produção que nos é apresentada, como uma leitura possível; visto a amplitude de interpretação que um mesmo objeto pode mover.
Na quinta parte, Ligia questiona o porquê de numa cultura hegemônica e do domínio avassalador da tecnologia ainda se estudar um ensino fragmentado, além disso, discorre sobre a necessidade do educador de indagar sobre o quê se estuda, como se estuda e para que se estuda, pois a partir daí podem surgir novas perspectivas para ampliar a formação pedagógica. Saberes que advém de trabalhos que nos convida a sermos sujeitos e objetos ao mesmo tempo, como é o caso da literatura. No entanto, estes só tem sentido se entendido como processo de cruzamento de respostas individuais, parciais e coletivas, em constante análise de reformulação. Portanto, de novas possibilidades e inferências.
Fica perceptivo nas reflexões propostas pela autora que, a pesquisa desenvolvida com ênfase na práxis, ativa a possibilidade e necessidade ética de uma articulação emancipadora entre o pesquisador e as pessoas envolvidas na atividade, construindo assim, uma valoração mais ampla na produção e ressignificação do saber.
Ainda nesse contexto de reflexão, a autora aborda a importância do seminário no desenvolvimento dos trabalhos acadêmicos, haja vista sua relação dialógica e reflexiva. Para fundamentar tal questionamento, apresenta Antônio Gramsci, um italiano que diz que o problema didático é temperar o conteúdo dogmático e que o seminário tem como meta quebrar paradigmas, ou seja, metas que deveriam ser trabalhadas já no ensino médio; numa relação de interação e, não na concepção behaviorista ou positivista, já que para ele, o estudo deve ser construído coletivamente.
Além disso, a autora delineia e questiona a maneira em que o curso de Letras é aplicado no processo pedagógico, ao invés de propiciar um amplo estudo sobre a leitura e a escrita, em grande escala, apenas trabalha na concepção de estímulo resposta; visando apenas corroborar para a ascensão da sociedade capitalista, assim aprisiona a ação criadora e libertadora do ser humano.
Ligia Chiappini, por meio de discussões sobre os princípios, estratégias, conceitos e procedimentos que delineiam a educação, narra e avalia criticamente experiências pedagógicas vivenciadas no interior das universidades e das escolas públicas. Para tal, aponta algumas tendências desenvolvidas durante mais de duas décadas, entre a invasão, a pouca adesão aos projetos de pesquisa e a reinvenção, a nova trajetória da academia que visualiza uma educação mais humana e emancipatória. Assim, a produção em foco, torna-se um referencial teórico de grande valia, especialmente, a educadores e pesquisadores principiantes, que buscam novos horizontes para se desenvolver na prática educativa.
Com destaque, os questionamentos da autora, neste livro, são direcionados as orientações curriculares para o ensino médio. Chiappini faz alguns questionamentos, tanto quanto às posições diversas dos professores no ensino da literatura como na difícil tarefa de formar leitores. Nesse viés, apresenta diferentes posicionamentos dos professores de literatura, de um lado aqueles considerados autoritários, por trabalharem apenas com obras clássicas como as de Machado de Assis e, de outro lado, professores que lançam mão de apenas textos clássicos, vistos como democráticos, assim trabalham com textos que vão de Fernando Pessoa a raps.
A autora aborda que, assumir a condição de leitor, ativa por excelência, significa colocar-se criticamente sobre a gama de produção que veicula tanto na escola como nas práticas sociais, portanto, é preciso conceber os textos como leituras possíveis, deixando que flua outra gama de pensares e possibilidades, pois a escola abarca, não apenas educadores, mas também educandos. Desta forma, é necessário refletir que a produção escrita coloca tanto educador como educando frente a um campo de batalha, de luta, de idéias, de linguagens diversificadas e produtivas. E, ainda, de acordo com a autora, “A leitura na verdade é uma arte em processo. (...) ler é questionar e buscar respostas na página impressa para nossos questionamentos, buscar satisfação a nossa curiosidade. Ler é sobretudo desejar” (CHIAPPINI, 2005, p. 193).
A obra traz ainda como apêndice, uma entrevista rara com educador Paulo Freire, ainda em exílio suíço, no qual ele explicita alguns de seus princípios pedagógicos, além de outros dois textos que documentam partes importantes da sua trajetória. Abordagens que também defendem a parceria entre universidade e escola pública, no intuito de viabilizar uma aprendizagem baseada no coletivo. Apresenta também o entrelaçamento entre as teorias e as práticas educativas, visualizando assim, uma educação humanista que propicia aos educadores a descoberta de que pesquisa e docência são inseparáveis.
É possível depreender o olhar, que na trajetória delineada por Chiappini, há uma busca constante por práticas pedagógicas libertadoras, nas quais o conhecimento torna-se uma atividade dirigida pela experiência. Mas, isso exige do educador o olhar inquietante, capaz de um estranhamento diante das coisas que a sociedade estabelece como natural e inflexível. Assim, faz emergir indagações que nos incitam a perceber as assimetrias e subjetividades. Tais percepções corroboram para que compreendamos a necessidade de aprendermos a lidar com as diversidades: aprendizados que podem nos tornar capazes de ajudar na construção de novos sentidos ao perceber o mundo de relações e complexidades, no qual estamos envolvidos.
Enfim, esta produção da autora Ligia Chiappini contribui para que percebamos que é nesta espiral, na qual a educação não é nunca uma linha estanque e linear, que talvez seja possível reconstruir e construir novos conhecimentos, na tentativa de modificar hábitos rançosos e ineficazes, não apenas no sistema educacional, mas em vários outros segmentos sociais, políticos e, sobretudo, humanos.


[1] Maria Elizabete Nascimento de Oliveira - Mestre em Educação – IE/UFMT e professora formadora do CEFAPRO-Cáceres.
[2] Cristiane Ivo Leite da Silva - Graduada em Letras e Professora da Rede Municipal de Ensino – Curvelandia-MT

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários passam por um sistema de moderação, ou seja, eles são lidos por nós antes de serem publicados.

Não serão aprovados os comentários:
* Escreva apenas o que for referente ao tema e relevantes;
* Ofensas pessoais ou spam não serão aceitos;
* Para entrar em contato acesse nosso formulário de contato;
* Obrigado por sua visita e volte sempre.

Atenciosamente, GT. Cefapro Cáceres